
.......Deita-se ao meu lado, suado e ofegante enquanto eu fecho os olhos
por um instante, a face direita colada em seu peito e nossa respiração que
é o único som perceptível no quarto, agora mergulhado no mais absoluto
silêncio. Um restinho tênue de sol invade tudo num filete de luz de um tom
alaranjado, desses de fim de tarde, atravessa as cortinas e penetra pelo vão
da janela, clareia, estampa e ilumina nossos corpos nus, abraçados, cansados
e entregues. Quero abrir os olhos. Espero alguns segundos, retardando esse
prazer ao imaginar o que eles irão encontrar. Mas eu sei...Irão enxergar um
homem que é um rio e suas margens e que em cuja extensão, profundidade
e saciedade eu nasço, morro e ressuscito mil vezes, no final de cada ato...De
amor! Um homem sem nenhum recato. Sem o menor pudor. Abro os olhos
e bem dentro do seu olhar, vejo uma certeza da qual eu ainda não desfruto.
Mas, apesar de tudo e em poucos segundos, sou capaz de entender todos os
mistérios da alma desse homem; decifrar todos os enigmas e impregnar-me da
sua mais absoluta essência e completude. E é justamente aí, que dentro do
meu corpo alguma coisa muito única dói. Quase corrói! Vem e preenche tudo;
emociona e ameaça romper-se, espremendo todos os sentimentos do mundo
dentro do meu peito, provocando uma emoção que nasce e se agiganta e que
tentando escalar minha garganta, enternece meu coração permitindo que um
sorriso incoerente brote dos cantos úmidos da minha boca. Assim, feito planta
inocente. E ele me olha, diretamente, enquanto eu, toda sem jeito, leio em
seu rosto uma felicidade tão simples, branca e tão sem fim, assim como o
meu seio, que se aquieta agora, cativo e satisfeito, sob sua mão. E deitado
entre as minhas pernas, ele me observa seguro e bem lá no fundo dos meus
olhos como se diante de si estivesse a sua maior obra de arte: uma mulher
plena, absoluta, indelével, realizada e definitivamente feliz...
Escrito por Cris às 10h01
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